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Intoxicação por raticidas

O caso do Tomi.

Fig 1: exemplos de raticidas anticoagulantes disponíveis no mercado.

O Tomi, um Chihuahua com 6 meses, macho, com pouco mais de um quilo, veio a consulta depois de roer uma saqueta de raticida. Os donos contaram que o acidente tinha acontecido apenas momentos antes e trouxeram a embalagem, o que permitiu identificar rapidamente o tóxico, a bromadiolona. O Tomi estava bem, sem qualquer sintomatologia, e era imperativo que assim continuasse.

A bromadiolona, é um raticida anticoagulante de segunda geração, usado em produtos de venda livre e fáceis de adquirir. Podem ser absorvidos após ingestão (direta ou através da ingestão de animais envenenados) ou através da pele, pelo que a manipulação requer cuidados especiais. Os raticidas anticoagulantes gastam os fatores de coagulação. Primeiro aparecem, alterações nos testes de coagulação e só uns dias depois aparecem sintomas. O quadro clinico final de uma intoxicação por anticoagulantes é o de hemorragia generalizada. Pode haver morte súbita.

Os sintomas incluem:

  • Letargia e/ou intolerância ao exercício
  • Anorexia
  • Palidez das mucosas
  • Dificuldades respiratórias
  • Tosse
  • Deitar sangue pelo nariz
  • Manchas ou pontos vermelhos na pele ou mucosas
  • Sangue nas fezes ou urina

A identificação de um tóxico, e primeiras instruções, pode ser conseguida com o recurso ao contacto da linha dedicada a venenos do INEM, o CIAV (Centro de Informação Antivenenos), com o número telefónico 808 250 143.

Como a ingestão tinha sido havia pouco tempo, optou-se pela indução do vómito com água oxigenada a 3% (2,2ml/kg, pode-se repetir uma vez) e um pouco de comida. Tivemos sucesso e o Tomi vomitou uma grande parte do tóxico (40 a 60% do conteúdo do estômago). Depois, foi administrado carvão ativado, pela sua capacidade de reduzir a absorção dos tóxicos pelo organismo.

Passadas 2 a 3h da ingestão, é provável que o tóxico tenha continuado para o intestino pelo que a indução do vómito pode não fazer diferença. Convém notar que é contra-indicado induzir o vómito quando já há sintomas ou quando se trata de tóxicos corrosivos. Existem ainda outras contra-indicações, que o veterinário deve ponderar.

O diagnóstico pode ser feito pela história e pelos testes de coagulação, que poderão ter que ser repetidos ao longo dos dias seguintes e do tratamento. A decisão de tratamento com antídoto (vitamina K1) deve ser tomada pelo veterinário com base nos dados recolhidos.

Preventivamente, o Tomi foi medicado com vitamina K1 durante 3 semanas. Durante esse tempo teve indicações para ficar em repouso e evitar qualquer situação que pudesse originar pequenas hemorragias (até alimentos duros). É recomendável fazer análises de controlo 2 a 3 dias após o fim do tratamento. Passado mais de um mês (mais de duas semanas depois do fim do tratamento), o Tomi está saudável e bem-disposto.

No entanto, em casos em que já hajam sintomas, além da vitamina k, o tratamento pode passar por transfusões de plasma, terapia com oxigénio, cuidados intensivos e monitorização dos tempos de coagulação. Alguns cães podem requerer muitas semanas de tratamento, dado o efeito prolongado do anticoagulante. É um tipo de intoxicação que observamos com alguma frequência na nossa prática.

Em caso de intoxicação contacte de imediato o seu veterinário assistente ou o CIAV 808250143.