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Isoeritrólise neonatal em gatos

A isoeritólise neonatal é uma hemólise (destruição do sangue) que ocorre em recém-nascidos, e que resulta de uma incompatibilidade de grupos sanguíneos entre estes último e a mãe. É uma doença mais conhecida nos humanos e nos cavalos, mas pode também acontecer em gatinhos, embora com menor frequência. Esta doença é rara nos cachorros. Nos gatinhos, esta doença é quase sempre fatal.

Os gatos podem ter sangue dos grupos A, B, ou Ab, sendo que A e Ab são dominantes em relação ao B (um gato tem de herdar B de ambos os pais para ser B). Gatos com grupo sanguíneo B possuem naturalmente anticorpos anti-A, podendo reagir logo no primeiro contacto (não é necessário haver uma primeiro contacto, como gestação ou transfusão de sangue, para haver sensibilização, ou seja produzir anticorpos contra A, para só reagir num futuro contacto). Estes anticorpos anti-A estão presentes em grande quantidade no soro e são fortemente hemolíticos (fortemente reativos). Gatos de grupo A possuem muito poucos anticorpos anti-B, que são também pouco reativos. As raças onde prevalece indivíduos de grupo sanguíneo B (raças em que este grupo é mais frequente) e portanto predispostas, são British Shorthair, Cornish, Devon Rex, Persa, Abissínio, Scottish fold e Birmanês.

Portanto, quando uma gata de grupo sanguíneo B cruzar com um macho A ou AB, pode ter gatinhos com o antigénio A (ou AB) nos seus eritrócitos (glóbulos vermelhos). Durante a gestação (gravidez), não haverá problemas, pois a placenta não deixa passar os anticorpos anti-A. Depois do nascimento, quando o gatinho mama, há uma absorção passiva dos anticorpos anti-A presentes no colostro (no leite da mãe) nas primeiras 12 a 24h. Ou seja, apenas durante as primeiras 12 a 24h, o intestino do gatinho deixa passar estes e outros anticorpos, necessários para a imunidade do gatinho nas primeiras semanas de vida do gatinho. Esta exposição a anticorpos anti-A fortemente hemolíticos irá levar a uma destruição maciça dos eritrócitos (glóbulos vermelhos) dos gatinhos de grupo A ou AB.

A severidade dos sintomas depende da quantidade de colostro ingerida. Depois do intestino deixar de estar permeável a proteínas tão grandes, os gatinhos não correm mais riscos. Os gatinhos nascem saudáveis, começando a exibir sinais ao fim de algumas horas ou dias de vida. Os sinais podem ir de urina escura (com sangue, hemoglobina ou bilirrubina), necrose da ponta da cauda (por obstrução dos capilares por trombos), a morte súbita dos gatinhos. Para além disso, podem deixar de mamar, de ganhar peso ou de desenvolver, ficar com anemia ou icterícia (mucosas amarelas), taquipneia (respiração acelerada) e taquicardia (coração acelerado). A morte ocorre geralmente na primeira semana de vida (por anemia, coagulação intravascular disseminada ou falência renal).

O diagnóstico é feito por tipificação dos grupos sanguíneos da mãe e dos gatinhos (ou então da mãe e do pai).

O tratamento consiste em retirar os gatinhos da mãe nas primeiras 24h de vida (2 ou 3 dias, segundo alguns autores) e em transfusão de sangue, se necessário. Contudo, devido à rapidez e à severidade do processo, o tratamento não tem habitualmente sucesso.

A prevenção é de longe melhor sucedida do que o tratamento. Consiste em tipificar (determinar) o grupo sanguíneo dos reprodutores. Se forem incompatíveis, será melhor não deixá-los cruzar e procurar outro(a) progenitor(a). Se mesmo assim o cruzamento entre uma fêmea B e um macho A ou AB for muito desejável, os gatinhos não deverão mamar o colostro da sua mãe nas primeiras 24h de vida, devendo ser alimentados com leite artificial, ou de preferência por outra gata do grupo A que esteja também a amamentar. Depois deste tempo, os gatinhos podem voltar em segurança para a mãe.

Gatinhos do grupo B que recebem anticorpos anti-B através do colostro de uma gata A não correm riscos, pois estão em pequena quantidade e são pouco reativos, como referido anteriormente.

Dora Canastreiro (DVM, 2016)